Imagem: Filme “O diabo veste prada” (2006)

Sororidade no ambiente corporativo: quão distante estamos disso?

Como lidar com a rivalidade feminina, que ainda é uma grande pedra no sapato de mulheres que lutam por crescimento profissional

É seu primeiro dia de trabalho em um veículo grande de comunicação. Você já está nervosa, sentindo as palmas das mãos suarem, mas feliz porque a oportunidade parece incrível para seu currículo. É uma revista feminina — então serão menos homens héteros com quem conviver, o que reduz um pouco o estresse (certo?). Mesmo assim, quando chega o momento de conhecer suas novas colegas de trabalho, você entra na sala e o olhar de cima a baixo que recebe de outras mulheres a faz congelar. Ah não… De novo essa história não. 

Contextualizando: essa cena se refere ao início do filme O diabo veste prada (2006), mas poderia facilmente ser a vivência de uma amiga, ou até mesmo sua. Se já não bastassem todos os outros grandes problemas enfrentados por mulheres em suas jornadas profissionais — salários injustos, falta de oportunidades de liderança, assédio moral e sexual, desrespeito —, nós ainda temos que lidar com o  fantasma mais elaborado que o patriarcado já criou: a rivalidade feminina.

“Eu aposto que milhões de meninas se matariam por esse emprego.” 

Apesar das críticas às formas de liderança abordadas no filme, a grande questão é que a manutenção do poder estrutural precisa de artifícios elaborados para existir de forma permanente. Segundo o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que passou a vida estudando sobre como os poderes simbólicos se articulam na sociedade em diferentes níveis, uma relação desigual de poder precisa necessariamente comportar uma aceitação dos grupos dominados. Claro: não uma aceitação consciente, mas sim o que ele chama de “submissão pré-reflexiva”.

Em outras palavras, aplicando nessa situação, mulheres brigarem entre si e se enfraquecerem nos ambientes que convivem seria um dos mais potentes elixires da vida que as estruturas de poder patriarcais poderiam sonhar. 

Inclusive, Flora Tristan — que publicou quatro anos antes de Karl Marx seu livro “União Operária” (1843), mesmo que ninguém se lembre de mencionar — descreve a posição da mulher no mercado de trabalho como sendo a da “proletária do proletário”. E é nessa posição de fragilidade estrutural que a discórdia feminina coloca em risco anos de luta por direitos iguais.

A mudança começa por você

A verdade é que tirar da cabeça séculos de frases feitas não é tão fácil assim. “Trabalhar com mulher, sabe como é, né?”. “Não dá pra confiar”. “Ela com certeza deu pra conseguir essa promoção”. “Parece que não sabe usar uma roupa que seja decente, pra não chamar atenção”.

“Prefiro homens, eles fazem menos fofoca”.

Julgamento. Que primeiro começa autoinfligido, e depois se espalha como uma doença. Se ver nas garras desse julgamento, ou se pegar pensando e falando algo do tipo, é mais comum do que imaginamos. Tudo isso é implantado na gente através da nossa criação, da pressão estética da mídia e de uma sociedade que insiste em fingir que está nos elogiando enquanto ofende outra mulher.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Kantar, do Ibope, revelou que 20% das mulheres sofrem com baixa autoestima. Para efeito de comparação, segundo o Instituto Ideia, apenas 3% dos homens brasileiros se acham feios, enquanto 47% se consideram bonitos. A autoestima exerce relação direta com a forma como lidamos com outras pessoas, e na ideia de “concorrência” que temos, o que acaba sendo um reflexo do porquê algumas mulheres ainda não conseguem se desprender da rivalidade.

Então, tomar cuidado com sua saúde mental e com a visão que tem de si mesma pode ser um fator determinante para você conseguir acabar com esse padrão de vez.

Mas e como lidar quando a rivalidade vem de outra mulher?

Mesmo aprendendo sobre a importância de empoderar mulheres e dar espaço para o crescimento delas, fica difícil conviver em ambientes onde você mesma não é amparada, ou se sente prejudicada por outras pessoas que se identificam com o mesmo gênero. No fim, se fomos todas criadas pela cultura para sermos inimigas umas das outras, e olhar sempre aquela que é mais bonita, ou mais bem-sucedida como nossa “rival”, o que fazer quando nos deparamos com a mulher que ainda não virou a chave da sororidade?

Primeiro-passo: não aceite isso como um padrão. Não serão todas as mulheres que você encontrar que terão essa mesma postura, então não dê espaço para que mais rivalidade se multiplique e mude sua visão sobre outras colegas. 

Segundo-passo: se possível, abra o espaço para diálogo. Dependendo do nível da situação, dá para reverter essa visão distorcida e conversar sobre o assunto para que juntas vocês consigam sair dessa cilada corporativa sem ninguém se prejudicar. 

Mas, se a tensão escalar, denuncie. Independente de questões relacionadas ao debate de gênero, se você se sentir prejudicada, desqualificada ou diminuída por alguém, exponha isso para seus superiores ou para o RH imediatamente, de preferência documentando as informações. Atitudes como essas se configuram como assédio moral, e não podem ser perpetuadas sem consequências.

Claro que esse é um debate longo, e em pleno século XXI ainda vemos bem longe uma solução definitiva para esse fantasma. Porém, para cada mulher que ganha consciência sobre essas estruturas e como elas impactam diretamente suas vidas, a esperança se renova. 
Aprender a cultivar a sororidade real, justa e prática é um desafio diário, e todos os dias podemos fazer diferente. Vamos juntas?

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